A Mala

Há dois anos eu comecei a resumir minha vida em uma mala. Com pouco mais de 30 quilos, ela já mudou comigo para quatro cidades diferentes e fez passeios sensacionais. Criei afeição por ela. Ela tem até apelido: Tia (e quando ela me irrita, chamo de Gorda).

Agora ela está ali. No cantinho perto da janela, espiando. Ela aguarda pacientemente o dia em que será operada novamente. Aberta, preenchida por várias roupas que eu sei que nunca mais vou usar e por livros que nunca mais vou ler… Ela aguarda, sem esboçar o menor tédio, finalmente ouvir o fechar do zíper, o anúncio do trem, a abraço de despedida.

Ela tem a esperança de que um dia esse adeus dure mais. Que ela possa finalmente descansar, ser esquecida dentro de um armário. Ela espera reencontrar as antigas malas daquele antigo armário e perde o sono pensando que quando esse dia chegue seja tarde de mais. Ela tem medo de ser esquecida e substituída.

Uma mala mais nova, com zíper mais forte, com rodas mais potentes…

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