O simples caso do descaso

Ela estava à toa. Ele também. Resolveram matar o tempo juntos.

Ela pedia para ser esquecida, mas insistia em não esquecer. Até os casos que ela sabia que não a interessava, ela insistia. Eles só insistiam quando ela realmente queria ser esquecida. E aí perdia.

Guardava pilhas de casos mal acabados. Enfiava os mais recentes onde sobrava espaço. Escondia os antigos embaixo da cama. Ainda assim, mexia neles de vez enquanto – só para tirar o pó, claro. E quando mexia neles, encontrava cartas rasgadas, fotos amassadas. E ria. Ria alto, muito alto. Se divertia de consigo mesma.

O problema era quando fechava aquelas caixas e as colocava novamente embaixo da cama. O que poderia ser visto como um passado engraçado e cheio de histórias emocionantes acabava virando um fardo. Enquanto apoiava a cabeça no canto da cama, pensava no que tinha dado errado. Onde foi que errou? Sentia-se velha e gasta.

Do que valia tantos casos se todos eles, cedo ou tarde, caiam no descaso.

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