La classe.

Ele fumava do lado de fora do restaurante, espremido pela janela, enquanto chovia na noite que caia ainda à tarde. Com a toalha que usava para limpar as mesas no ombro e sem casaco, a fumaça que saia de sua boca disfarçava o frio que já lhe deixava as pontas dos dedos arroxeadas.

Saíra porque precisava respirar outro ar que daquela atmosfera quente e barulhenta que fazia do lado de dentro. Só observando pela janela pode perceber que era isso que o incomodava naquela noite. O jazz e o vinho o deixavam zonzo demais para uma dura jornada entre cartões de créditos e conversas desinteressantes.

Novamente entediado pelo cigarro que queimava mais rapidamente do que ele gostaria, apaga a bituca num canto queimado da janela. Respira fundo, abre a porta e retoma seu trabalho.

Fosse talvez seu tédio que a interessava. Disfarçava que o observava toda a noite. Se escondia atrás do cardápio ou de um sorriso tímido. Talvez fosse apenas a forma como ele segurava o cigarro, dando pouca importância para o fogo que começava a queimar a ponta de seus dedos gelados. Quem sabe fosse apenas o jazz, o saxofone, que a trazia boas recordações de noites como aquela.

Meia luz. Violão, uma voz que canta quase sussurrando próximo às velas da mesa que enfeitavam a mesa do jantar e entre seus amigos que preferiam ensaiar um show de rock. O que ele não sabia era que ela, mesmo com todo aquele barulho, só conseguia ouvir a voz dele. Tudo o que ela esperava era que, por um segundo, ele esquecesse sua timidez e a olhasse nos olhos, permitindo com que ela admirasse a beleza que contida neles.

Mas talvez fosse só isso. Talvez ela só procurasse preencher seu vazio, encontrar um pé quente do meio da noite ou um rosto amassado após uma noite bem dormida que não fosse dela própria. Ou fosse só saudade dele. Ou ainda apenas vontade de fazer poesia.

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