Oi, você por aqui?

Hoje eu dei de cara com aquela garotinha na rua. Em sua alegre melancolia, ela folheava aquele livro de gravuras coloridas e se entediava pelas poucas palavras que haviam naquelas páginas.

“História imbecil”, pensava ela enquanto murrava o livro pra dentro daquela mochila gigante que fazia questão de carregar.

Como de costume, sua mãe demorara a buscá-la na escola. Vida difícil, corrida, apertada.

Eu até podia ter pegado em sua mão e a levado pra casa. Mas, suas atitudes me hipinotizaram, imobilizaram, me deixando incapaz de mover qualquer outra coisa além de minha mão, que trazia o cigarro até minha boca.

Ao cruzar os braços e bufar de tédio ao observar o pátio já vazio, a estelinha de papel cor de rosa já amassada em seu bolso, a distraiu. A estela, desenhada pela ‘tia’, tinha um olhar tão meigo quanto o da própria pessoa que a desenhara.

Foi quando percebeu que alguma coisa a deixava extremamente incomodada naquela estrela. Talvez fosse a cor. Rosa, não gostava de rosa… Não entendi porque ganhava tanto presente rosa. Não entendia porque sua lancheira era rosa.

Levantou-se como se tivesse tomado um susto e, em galopadas, se dirigiu ao porteiro do colégio.

“Tio, por que a estrela tem essa cara de… de… parece que ela tem dó de mim!”, disse com um tom infantil, mas colocou a pergunta como se o ‘tio’ fosse alguém muito importante.

“Ora, menina! Largue de conversa! É só um desenho!”, respondeu.

Decepcionada, voltou ao lugar onde estava sentada antes.

Pouco depois, a buzina do carro de sua mãe no portão indicava que era hora de voltar pra casa.

Eu dei o último trago, apaguei o cigarro na parede e andei, na direção oposta a do carro.

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