Vou Explicar.

Eu queria ter a vocação de fazer literatura. Eu até arrisco dizer que, com um pouco mais de maturidade, seria capaz de fazê-la. Mas, o pensamento que sempre me vem a cabeça é ‘quem me leria?’ ou pior, ‘quem me publicaria?’. Quem, ainda hoje, entende a diferença entre sentimento e sentimentalismo? Quem consegue, em um segundo, captar cheiros, cores, olhares e movimentos e perceber a beleza na feiúra? Quem permite apaixonar-se por uma folha seca no chão, por um rapaz qualquer na rua, por uma frase, um livro, um bombom?

Quem opta pela literatura no metrô, no ônibus? Pra quê? A literatura foi simplificada pela autoajuda, pelos Best-sellers, pelas versões, pelos filmes. Pra que sentir a doçura das palavras escritas por alguém que não conhecemos em nossas próprias bocas?

Quem? Pra quê? Por quê? Arte é banal. Banal é arte.

Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê. – Srta. Lispector em A Paixão Segundo G.H.

 

Fragmentos

Fazia frio. Talvez até nevasse. Os cheiros da cidade estavam penetrantes. Tanto os bons – aqueles de café no fim da tarde, de cookies assando, de jornal pela manhã, de um livro novo, das folhas que secavam no parque… – quanto os ruins – a gasolina, a fumaça, o xixi, o lixo.

Se apenas abrisse os olhos e tudo o que pudesse ver fosse o céu, ainda assim saberia onde estava. Aquela cor cinza que toma o lugar do azul na hora do almoço promete que o resto do dia vai ser gelado. Talvez vente ainda mais. Talvez quebre mais um guarda-chuva que vai se juntar a tantos outros nos canteiros das ruas.

Ao dobrar a esquina, sentiu seu coração disparar e as adormecidas borboletas no seu estomago saírem de seus casulos. Preferiu encarar a calçada. Não tinha coragem de olhar para frente e encará-lo. Sabia que vê-lo a faria abrir um sorriso que a renderia, deixaria sem qualquer capacidade de negar seus sentimentos. Apenas esse pensamento já fez nascer um esboço de sorriso no canto de sua boca.

Passara naquela rua todos os dias nos últimos dois meses e já tinha certa intimidade com aquele chão. As listras na calçada deixavam claro quem deveria zelar por aquela entrada. Sabia que na décima chegaria a seu destino final.

Quando pisou na sexta listra, não agüentou. Se traiu. Espiou por cima dos cílios. Lá estava. De repente, seus passos ficaram lentos e suas pernas pesadas. O sentimento de vagarosidade brigava com a ansiedade de cruzar as quatro listras que faltava.

A sombra de seus cílios já se confundia com o casaco preto dele. Até que um floco de neve pousou delicadamente em seu nariz. Foi quando finalmente, com um riso contido, resolveu encará-lo.

Sentiu que seu coração parou de bater depois que, com um sorriso sincero, ele disse, em sua língua, “olá”. Se sentiu tão boba que quase caiu na gargalhada.

Quando seu pobre coração ameaçava retomar as batidas, ele estendeu a mão e tirou, com ternura, o floco de neve, que já era um pingo d’água, de seu nariz.

Com a mesma mão, segurou firme nos dedos gelados dela e os dois foram pisando nas listras daquele quarteirão até serem perdidos de vista.

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