#40 – Resquícios da memória

Achado no Google Images.

Achado no Google Images.

Fotos eternizam ou destorcem momentos.

Muitos momentos das nossas vidas nós guardamos com muito zelo em alguma gaveta do cérebro e voltamos a eles quando julgamos necessário.

Estes dias, uma rápida conversa me fez lembrar os cheiros e das texturas dos meus domingos de corrida de formula 1 com meu pai. Eu não entendia nada, só gostava do barulho que os carros faziam quando passavam perto da câmera (o famoso Vruuuuum…) e da música que tocava quando Ayrton Senna ganhava (o famoso Tan tan tan, tan tan tan, seguido de um dos bordões – talvez o único – queridos de Galvão: É ele, Ayrton Senna do Brasil!)

Pouco menos de 20 anos depois, uma memória, não tão antiga ou tão simbólica, vai ficar gravada. Fiz questão de não fotografar. Primeiro porque era minha última noite em Praga e talvez a mais fria até então.

Depois de algumas boas doses de Absinto em qualquer bar escondido da cidade, os que resistiram até o final da noite saíram em busca de um taxi ou qualquer meio de voltar ao hotel para aquecer os pés.

Três americanos, duas canadenses, uma sueca e uma brasileira. Talvez tivesse mais alguém. Talvez não. Um dos americanos era um de nossos professores, que resolveu, em plena madrugada, fazer um tour pelo centro velho de Praga.

Estávamos em Mala Strana, bem perto da Ponte Carlos, bem perto de tudo menos do hotel. A Ponte Carlos, iluminada, acumulava muita neve nos cantos e alguma, recém caída, na passagem.

A iluminação do Vlavta, das torres da ponte e da romântica luz natural da cidade, formavam uma paisagem entusiasmante. Talvez aumentada pelo efeito do Absinto. Talvez por sermos os únicos acordados daquele lado da cidade que andavam a pé na noite congelante.

Santo Remedinho

Eu andava ao lado da sueca – que morava na Rússia, ou o contrário – que estava há dias com febre, curada temporariamente pela Becherovka. Ela quis parar para fotografar depois que, por algum motivo, as duas olharam para trás e soltaram um “Wow!” em coro.

Isso porque atrás de nós estava, a cima das colinas, o imponente simpático Castelo de Praga e uma cidade medieval fantasma. Hoje, ao fechar os olhos e lembrar daquele cenário, penso em tantas coisas que poderiam acontecer naquele pano de fundo. Penso na Tereza de Kundera, sugada por Praga, sentia um amor doentio pela cidade invadida pelos soviéticos.

Meus pés já estavam congelados e eu mal podia sentir meus dedos. Lutava para não escorregar nos paralelepípedos das ruas.

Prefiro lembrar assim. As fotos não seriam tão fieis as minhas palavras.

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