Palavras.

Aquele dia tudo o que ela queria era que tivesse um trânsito inacabável. Ela queria se jogar em cada detalhe do livro que lia. Tanto, que se pegou reparando nos detalhes daquele marca páginas, que já amarelado, não escondia que já tinha tanta idade quanto aquele livro de capa dura que tinha a assinatura da mãe, quando ainda era tão jovem quanto ela, na folha de rosto.

Quando percebeu, escrevia seu próprio romance mentalmente, lembrando da amiga que tinha lhe dado aquele pedaço de papel com alguma outra coisa, que não sabia afirmar com certeza se era apenas um cartão ou se tinha mais algum presente junto. Começou a lembrar com pouco carinho, embora com saudade, do tempo que tinha pouco mais – ou menos – de dez anos.

Alguma coisa na confusão daquela história a deixava intrigada. Além disso, podia visualizar com mais clareza os cenários daquele romance do que os cenários da própria vida, que parecia muito com os quadros – pós-modernos – pintados por uma das personagens do livro.

[Depois de muito falar sobre o kitsch, Milan Kundera, o homem que pare seus personagens, termina a sexta parte de “A insustentável leveza do ser” assim:]

“O que restou dos agonizantes do Camboja? Uma grande foto da atriz americana segurando nos braços uma criança amarela.

O que restou de Tomas? Uma inscrição:  “Desejava o Reino de Deus sobre a Terra”.

O que restou de Beethoven? Um homem triste com uma incrível cabeleira, que enuncia com voz soturna: Es muss sein!

O que restou de Franz? Uma inscrição: “Depois de um grande afastamento, o retorno”

E assim por diante, e assim por diante. Antes de sermos esquecidos, sermos transformados em kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento”

Há algum tempo, li uma compilação de livros apocalípticos. Em seqüência, li “O Admirável mundo novo”, “1984”, “Não verás país nenhum” e “O Ensaio sobre a Cegueira”. Ao final deles, precisei de um tempo para me refletir e digerir os quatro antes de partir para minha próxima aventura. Foi uma bela escolha, que me fazia rir horrores quando via olhares indignados espiando a lombada ou as palavras soltas do livro. Li “Lolita”.

Depois de algumas leituras não tão marcantes e de uma tentativa frustrada de mergulhar em Nelida Pinon, parti para um romance – romance romance MESMO – indicado por um querido amigo e parceiro. Me afoguei em “Reparação” durante pouco menos de um mês. Foram 400 páginas que me fizeram admirar não só o que qualquer “crítica Reparação” digitado do Google trariam. Sim, a forma adotada por Ian McEwan é fantástica, mas o enredo é ainda mais lindo.

O final do livro é justo. Uma garota que vive mais na imaginação que no mundo real – ponto onde me identifiquei fielmente com Briony – perde a memória. Fiquem tranqüilos, não contei o fim da história, contei apenas o que me fez chorar por uma meia hora seguida, ridiculamente, soluçando.

Chorei porque considero a minha memória a minha única, embora nem sempre fiel, aliada. Se eu quiser, ela mente pra mim e transforma dias tristes e situações amargurantes em dias de sol, com pássaros cantando e borboletas voando. É só pela minha memória e meu olhar – observem, meu olhar, não minha visão – que posso escrever, que posso viver minha paixão e ser fiel – aí sim – a ela.

Agradeci imensamente ao meu amigo por ter me feito ler um livro tocante como aquele. Virou filme. Eu achei bem fiel – novamente – a história do livro, claro, com as necessárias adaptações. Mas a literatura e só ela, aliada às nossas memórias, é capaz de transformar uma história triste naquilo que desejarmos.

“Cecilia wondered, as she sometimes did when she met a man for the first time, if this was the one she was going to marry, and whether it was this particular moment she would remember for the rest of her life – with gratitude, or profound and particular regret.” (p. 44)

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