Inconsciente – Parte I

Queria acreditar que aquele dia seria o primeiro dia do recomeço de sua vida. Fazia sol e ele sempre se sentia motivado com o calor. A única coisa que lhe deixava um pouco incomodado era o sapado de couro apertado que era obrigado a usar todos os dias e deixava seus pés cheios de bolhas.

Trocou o chaveiro do apartamento em reforma e o corte de cabelo. Ao entrar no elevador naquela manhã tão energizante, fez questão de conferir se o gel estava dando o efeito desejado no novo visual.

Achava que seria capaz de revolucionar sua vida, embora não estivesse com muita vontade de abrir mão de muitas coisas que considerava confortáveis. Recebia um salário que dava – e sobrava – para garantir um mês com tudo o que precisa; o condomínio de seu apartamento nos Jardins, o carro zero na garagem, as baladas regadas de muita bebida, os jantares com as garotas em restaurantes da moda e, claro, o armário impecável.

A verdade era uma só. Odiava seu trabalho e todo o dia se questionava se tinha feito a escolha certa da vida. Pensava que devia ter se lançado no mundo com sua prancha de surf, que hoje só pegava pó encostada na parede do quarto.

O único verdadeiro estímulo que Beto tinha no trabalho era Lia, uma garota independente e dona de um longo cabelo castanho que nunca penteava. Eles se conheciam há anos, mas nunca trocaram mais que poucos ‘bom dia’ tímidos perto da máquina de café.

Lia era a menina dos olhos do editor. Não por seus textos, que sempre precisavam de longas revisões e adaptações, mas pela capacidade de arrancar dos entrevistados muito mais do que o previsto. Fazia com que as fontes chorassem desabafando as versões verdadeiras de um caso impossível e encontrava personalidades polemicas fosse no bairro vizinho ou em alguma ilha do Pacífico.

Aquele era do dia D. Ele finalmente havia se proposto a falar com ela. Não sabia o que, não tinha ensaiado. Mas sabia que era o primeiro caso que precisava revolucionar.

Passava os olhos calmamente pelas manchetes dos jornais e das revistas enquanto a barulhenta máquina preparava um café ralo e forte, necessário para começar o dia. Quando o cheiro do café começou a ficar mais forte, ouviu o barulho único dos saltos que as mulheres vaidosas usam e do perfume que insiste em causar alergia pela manhã.

“Hã”, fez coçando a garganta e tirando o café morno da máquina enquanto ela já colocava a mão no bolso atrás de moedas.

– Deixa, eu pego um pra você, disse Beto, posso adivinhar seu favorito… moccachino… Acertei?

Com uma cara desconfiada, Lia respondeu um tanto impaciente.

– Sim, como você sabia? -. logo emendou já aumentando a voz – não precisava, eu tenho moeda aqui. Bom, obrigada. De todo jeito, fico de devendo um café.

Como ele sabia? Uma das características mais apuradas de Beto era a da observação. Não só a mais apurada como a mais secreta. Enquanto fingia indiferença e impaciência esperando pela vez de pegar o café, Beto observava as longas unhas de Lia recém pintadas na segunda-feira e já descascadas na sexta apertando o mesmo botão.

Naquele dia, também pediu um moccachino. Achava que aquela mudança representava um motim de sua revolução. Trocar o expresso sem açúcar pelo moccachino representava saúde extra para seu estômago.

Desejou o famoso ‘bom-dia’ a Lia e foi assoviando para sua mesa. Ah, nunca gostara tanto de uma segunda-feira.

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