Enigmas

De tanto escrever, resolvi descansar um pouco escrevendo.

Isso porque estou com uma história na cabeça e uma vontade de falar sobre ela. Tenho certeza que esse texto não vai ficar exatamente como eu imaginava porque estas histórias são daquelas que rendem livros.

Em 3 anos fazendo aula de francês, já passei por três turmas diferentes e não fiz muitas amizades. Não sei porquê.

Essa turma que estou agora é formada por muitas mulheres e um menino. A boa parte das mulheres é mais velha e tem o grupinho das meninas mais novas, mais ou menos com a mesma idade que eu.

Sei que cada uma destas mulheres mais velhas, com quem eu acabo conversando mais, tem uma história interessante e até, de uma forma graciosa, triste.

A primeira história que quero contar é sobre uma matogrossense que mora em São Paulo já há algum tempo. Ela não aparenta ser nova. Mas há anos tenta engravidar e não consegue.

O que mais me impressiona nela é que, após um ano tentando fazer inseminação e tratamentos ela consegue falar desta ‘frustração’ de não conseguir engravidar sem tremer a voz ou encher o olho de lágrima.

Ela me contou, bem rapidamente, sobre como foi triste quando ela teve o primeiro falso alarme de gravidez. Agora, ela tenta conter a expectativa dela.

– Se tudo correr bem, agora vai – ela disse com uma cara esperançosa, mas já temendo o pior.

– Você já pode estar grávida! – disse eu, um tanto empolgada.

– Não quero me encher de esperanças. Mas espero que esteja. – terminou, me deixando sem ter o que responder.

– Boa sorte! Vou torcer. – tentei encerrar o assunto de forma agradável.

Ela agradeceu com um sorriso tímido e descemos para o intervalo.

Lá já estavam sentadas outras duas mulheres: uma casada com um italiano, muito engraçada e espontânea e outra, a mais velha da turma.

A ‘matriarca’ da turma lecionava para colégios quando era mais nova. Geografia. Deixou bem clara a frustração do que fazia assim que perguntei se ela tinha mesmo dado aula.

– Ser professor é a pior coisa do mundo, não desejo isso pra ninguém. Além do mais, ganha muito mal. – disse.

Logo alguém mudou de assunto e começou a falar das meninas mais novas, que haviam saído para tomar café e começaram a comparar as gerações. A mais velha logo tomou a palavra:

– Perdi muito bom partido pela minha timidez. Se pudesse voltar atrás, talvez não estaria casada com meu marido.

Senti mais uma frustração.

Não sei se dá para fazer qualquer comparação entre elas. Mas as duas tem um sentimento em comum: a frustração.

Às vezes penso que nós mesmos alimentamos nossas frustrações, talvez para poder ter um pouco de autopiedade. Isso está longe de ser uma crítica. Fazemos inconscientemente.

Mas o que eu mais admiro nestas duas mulheres é a capacidade de conviver com estas frustrações. Uma luta para acabar com ela. A outra já acha que é muito tarde para voltar atrás.

Não sei o que eu acho. Só queria dividir isso com alguém.

Sou um velho diário perdido na areia
Esperando que você me leia
Sou pista vazia esperando aviõesSou o lamento no canto da sereia
Esperando o naufrágio das embarcações

Vander Lee – Esperando Aviões

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