Borboletas

Fuçando nos meus arquivos, encontrei um texto que fiz pra faculdade. A professora não gostou. Mas eu gosto dele. Espero que você também.

A barba disfarça a marca das espinhas que um dia tomaram conta daquele rosto. Os olhos já não negam que o tempo passara para eles. O cabelo começa a mostrar falhas e os fios já são mais claros. A palavra, rapidamente trocada, com o tom de saudade ainda no ar, se despede. O último olhar e o sorriso frouxo sabem que aquele momento vai demorar a se repetir. Não fazia sol. Era um dia cinza e de mal-humor que deixava o cheiro da nostalgia ainda mais forte.

Foram amigos um dia, confidentes. Mas as páginas daquele diário ficaram amarelas e começam a ser devorada pelas traças. Quem diria. Ele namorava sua melhor amiga do colégio. Ela, com o rosto sempre marcado pela timidez simpática, era apaixonada pelo melhor amigo dele. Trocavam confidências.  Embora simples confissões adolescentes, logo perceberam que entre tantos segredos, o maior eles dividiam sem ao menos saber.

Ela desvendou primeiro. Foi depois daquele toque de telefone que sua timidez perdeu a simpatia e ganhou borboletas. O que eram aquelas borboletas? Então, um tremido ‘alô’ e os eternos segundos a espera da resposta. Era ele. Disfarçar, empalidecer, envermelhar… Ele não poderia descobrir. E sua amiga?

 Dias, meses, anos… Aquele momento. Era como voltar no tempo. O que dizer? Borboletas. As primeiras borboletas adormecem, mas, ao contrário dos amantes, não envelhecem.

 A saudade era do que não aconteceu, das imaginações e do afastamento que a falta de coragem dos jovens os levou. E se tivesse sido diferente? E se tivessem encarado. Hoje mais nada daquilo faz sentido, passou, levou, pouco ficou.

 A viola embaixo do braço e o tênis desamarrado mostram que nem tudo mudou. A gargalhada contida e o vento que insistia em embaraçar o cabelo pareciam ser os mesmos daquele tempo.

 O fone volta ao ouvido. O cadarço volta a se arrastar pelo chão. O vento é o único que parece finalmente fazer silêncio. A mochila volta às costas e os dedos de volta às cordas. Será que aqueles dedos ainda lembram daquela música?

 Fim. Três passos. Ou talvez seis. As borboletas se acalmam, mas como um disco riscado, o rosto retoma a simpatia. O vento a faz respirar fundo. Tempo que não volta e ponto.

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