Aceita um cafezinho?

Depois de um longo e tenebroso inverno, alguns pequenos acontecimentos fizeram a minha vontade de blogar ressurgir.

Falando em inverno, faz hoje em São Paulo um típico dia de… bem, paulistanos, vocês sabem como é o clima da cidade, mas chove e o céu está lindamente (sim, lindamente) cinza.

Há pouco mais de um mês troquei de trabalho. Mas, a melhor coisa do meu novo ofício é vir à Avenida Paulista todos os dias. Eu deveria entrar no trabalho às 9h da manhã, mas a irresistível carona da ‘mamãe’ até a estação de Metrô tem me feito sair às 5h30 da cama. Horário que eu normalmente acordo para chegar às 7h30 no Mackenzie.

Como o Metrô pela manhã não é o lugar mais calmo de São Paulo, ao invés de fazer duas baldeações (linha vermelha para linha azul e linha azul para linha verde, a que corta a Paulista), desço na Estação Santa Cecília, vou até o Terminal Amaral Gurgel e pego o ônibus Aeroporto, que sobe até a Paulista em razoável calmaria.

Mesmo assim, chego aqui no Trianon uma hora antes do meu trabalho de fato começar. Hoje, na correria de sair de casa, não tomei meu precioso cafezinho. É lógico que, se o leitor me conhece um pouco – e apenas um pouco – , já sabe que café para Mayra equivale à gasolina para carro… rsrsrs…

Sei que nos fundos do prédio onde fica o escritório tem uma boa quantidade de cafeterias. Pronto, já sabia onde tomar meu expresso da manhã. Sem pensar muito, entrei em qualquer uma delas e de cara recebi um simpático ‘bom dia’. Ainda de fones de ouvido, tentando ficar um pouco mais informada, achei que nem fosse pra mim.

Com uma cara de perdida e os óculos cheio de gotas de chuva, tirei e fone e, com todo meu autismo por opção, olhei pra frente. Lá estava o ‘bom dia’, ainda me olhando com um sorriso. Homem grisalho, alto, elegantemente vestido, ele insistiu: “Bom dia! Combustível para começar o dia?”. Pronto. Ele ganhou minha eterna simpatia.

Abri um sorriso, ainda tímido. Nasci em São Paulo, não estou acostumada a tais cortesias. Sentei, ainda meio distraída, e comecei a tentar decifrar o cardápio. Talvez por ver minha cara de desespero, o moço olhou pra mim, mais uma vez com uma cara de quem achava graça da minha cara de perdida e disse: “Estou fazendo um pão na chapa pra mim, mas ele é seu… E vem com uma fatiazinha de queijo prato. Ela é fria, mas com o calor da manteiga ela derrete. Uma delícia! Pra acompanhar, vou tirar uma média pra você.”. Aí ele me conquistou de vez.

Sem muita reação, ri e disse “ok! Vou na sua!”. Uma menina sentada ao lado, parecia já ser cliente da cafeteria, sorriu pra mim com uma cara que devia querer dizer: “Ele não é demais?”. Contou diversas histórias de quando atendia na Alemanha em um hotel de classe turística… Enquanto isso, zapeava o olhar pela loja e deparei com diversos diplomas de barista, chef… O sotaque dele não enganava. Paulistano descendente de italiano. A parte italiana também se revelou quando, ao me servir, disse Buonno Appetito – ou algo parecido, não sei italiano. Além disso, o nome do local também parecia vir da língua.

8h30. Começou a juntar gente na pequena cafeteria da enorme Alameda Santos. Ele logo começou a se ocupar e eu já terminava o ‘café especial’ que ele havia preparado. A cada um que chegava, a recepção era a mesma. Lá vinha o incansável bom dia, com o permanente sorriso e o palpite do que a pessoa pediria. Aquilo formava um ambiente tão delicioso quanto o pão na chapa que acabara de comer.

Paguei a conta e saí mais leve de lá. Não sei… Pensei por um instante estar em outro lugar e em dividir isso de alguma forma. Subindo os degraus do prédio, logo voltei a imensa capital. Fila para pegar o elevador e cara de mau humor matutino já estavam ao meu redor novamente. Faço às vezes do moço da cafeteria e digo: ‘Bom dia, São Paulo. Aceita um cafezinho?’.

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